IPCDH: Gênese e essência poeticamente postas

O instituto Popular Cárcere e Direitos Humanos – José Pereira da Conceição Júnior, gesta-se do mundo dos homens, na concreta barriga de uma sociedade desumana em momento e humana por essência. O seu nascer não se apresenta por hipóteses, abstrações e nuvens do puro pensar, a sua nascença, o seu chorar de anúncio de chegada advém da carne, das relações concretas da vida, dos encontros e dos desencontros, do não aceitar o desumano, o reacionário, a indiferença. Advém da agitação radical do revolver materno na defesa da vida, do saber do outro e sentí-lo, escorregando nas linhas do horizonte humanizante no procurar do romper com o silêncio, com a inação, com o individualismo, em um sólido entrelace das solidárias mãos a ultrapassar o dado, o certo e o acabado, a aflorar a prática possível do romper correntes, algemas e grades em uma aurora rasgadora do injusto.

O instituto nasce de um caso real de injustiça quando um homem, inocente, chamado José Pereira, condenado injustamente a vinte anos de prisão, preso há quase quatro anos, em um novo julgamento, após popular e árdua luta, em campanha dentro e fora do modulo jurídico, é absolvido, inocentado. Assim, através do caso objetivo, dos olhos que se cruzaram, choram e veem, enxergou-se um fio em um emaranhado de teias que leva a outros fios, novas vidas e novos corpos para vestir e tocar, por diálogos e fazeres, sentindo o sentido, necessitando se faz unir mãos, a necessidade da vida a constituir um instrumental revolucionário do humano no desumano na perspectiva de intervir no cárcere, conhecê-lo, mergulhar nas tuas profundezas, transformá-lo.       

Um desvestir e vestir de uma estrutura que abarca homens que tem tempo, relações e lugar, a partir de uma flor desabrochada nas dores de um espinho que sangrou um inocente, sangra outros inocentes, a comunidade e os seus, sobretudo, os do povo, pretos, pobres e das periferias.

Uma unidade de mãos a apanhar vidas em um concreto e real significar do humano, misturado ao dialético, ao diferente e ao igual. O moinho do movimento de um apreender da liberdade no seio do seu contrário, da sua contradição, desenvolvidos nos chãos da prisão, entre as grades, em uma perspectiva caminhante do optar pelo humano, pelo desvelar do ser homem.

Águas em descidas a gerar as forças de um chegar crítico, reflexivo e transformador, que adentrar-se e reencontra-se com a vida encarcerada, a construir um caminho apontado para a humanidade, onde as pegadas serão marcadas entre os de dentro e os de fora, e os teus, quando estes sapateados desenterrarão as raízes do sistema, num compreender da verdadeira semente da parte liberta e não liberta.

O Instituto, um erguer de mãos lutadoras em ventos universais nos ares dos voos coletivos, alimentado nos laços do ser sendo e ser pensado, que chega até a liberdade em solos do cárcere levado em substância pelas correntes do humano, gestado pelo corpo e espírito dos movimentos nas relações do ser social. Uma unidade que se encontra no capturar do restringir ou ceifar da liberdade, na vida daqueles que perdeu o relacionar com os seus e pelos seus, sem cortar a parte da parte dos homens, nem negar a fração de um todo, a parte de um coletivo, que reflete o todo num espelhar da face da sociedade.  

Pelos caminhos do Instituto, o cárcere, por ser parte de um todo, não pode traduzir-se em inexistência, morte, exclusão ou esquecimento, muito menos viver no abandono, em sendo parte do ser social, deve continuar em vida, respirar, sentir, sobreviver, sentir-se abraçada, e exigir o voltar a se relacionar, a ser humano.

Eis a razão de sua existência.